sexta-feira, 29 de junho de 2007

Cotas na UFRGS

Já que todo mundo está cansado dessa discussão imbecil das cotas, ao invés de argumentar, vou simplesmente reforçar meu ponto habitual: esse país é escroto.
Nojo. De verdade, sem exagero mesmo. Nojo.

Cultivando o futuro do país


Estava passeando como cachorro quando ouvi a mãe explicando à filha pequena:

"O remédio que cura dor se chama analgese."

Sem comentários.

domingo, 17 de junho de 2007

Babel e a Globalização - SPOILERS


O texto a seguir eu fiz como um trabalho para a aula de sociologia, e, por isso, dáenfoque à globalização, falando pouco do filme como diversão, por exemplo.


O filme Babel, do diretor Alejandro Gonzáles Iñárritu, tem como temas principais a globalização e o problema da falta de comunicação entre as pessoas. O roteiro foge do padrão habitual hollywoodiano por desenvolver três histórias aparentemente desconexas.

A história inicial se passa no Marrocos, onde um homem compra um rifle para que seus dois filhos possam caçar chacais. Para testar o alcance da arma, as duas crianças atiram em um ônibus que passava na estrada, ao longe, e acertam uma turista americana. A segunda história é a de uma babá mexicana que cuida de duas crianças americanas enquanto os pais viajam. Ela quer ir ao casamento de seu filho, no México, mas, como não tem com quem deixar as crianças, leva-as junto. A terceira história se passa no Japão, e mostra o drama de uma adolescente surda-muda e sua total carência afetiva.

Como o filme é bastante longo, com 142 minutos de duração, a história se torna, em certo ponto, previsível, pois indícios sobre a relação entre as três diferentes tramas podem ser encontrados cedo demais. Logo no começo, a babá fala ao telefone com o pai das crianças, que diz que Susan (a mãe, até então não identificada assim pelo espectador) havia levado um tiro. A trama que se passa no Japão, por outro lado, permanece aparentemente desconexa por bastante tempo, mas isso não chega a comprometer o filme, embora a relação da trama japonesa, que, longe de ser ruim, acaba se dedicando mais a problemas como relações pessoais e preconceitos, com as outras seja bastante pequena para justificar tamanha ênfase. Mais tarde, descobre-se que o pai da garota surda-muda foi quem havia dado o rifle ao marroquino que o vendeu para o pai das duas crianças, para que estas pudessem caçar.

A relação entre as tramas acaba por parecer pouco verossímil se for entendido denotativamente pelo espectador, mas é bastante pertinente se pensarmos no conceito por trás da história. O que o filme quer nos mostrar é que qualquer ação, ocorrida em qualquer lugar do mundo, pode interferir, direta ou indiretamente, nas nossas vidas. O japonês que deu seu rifle de presente ao marroquino, em agradecimento por este último ter sido seu guia em uma caçada, jamais poderia imaginar que a arma acabaria sendo usada por uma criança para matar uma turista americana, mesmo sem intenção. Esse conceito se aproxima da famosa máxima da teoria do caos, que diz que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um furacão na Ásia. Ninguém pode saber qual será o resultado de uma ação a longo prazo, nem mesmo em sua vida pessoal, mas o filme mostra que essa incerteza acaba se entendendo para o nível mundial, tanto mais quanto mais relações existem entre os vários lugares do globo terrestre.

Além das inter-relações entre causas e efeitos a nível mundial, o filme mostra também os efeitos da globalização nos diferentes cenários (e dificilmente poderia ser diferente em qualquer filme que mostra cenários atuais em qualquer dos países globalizados – ou americanizados). Os lugares freqüentados pelos jovens japoneses são muito semelhantes aos outros do mundo todo, como lanchonetes e danceterias com música eletrônica (todos com origem americana). Já a pobre região do Marrocos não conhece o American Way of Life, e a chegada do ônibus de turistas, assim como a de um helicóptero, chama atenção da cidade inteira, que pára a fim de assistir à inusitada cena.

Os americanos que param na pequena e pobre cidade marroquina acabam se assustando com o choque cultural, e têm medo de permanecer lá. Há uma desconfiança muito grande dos cuidados médicos dispensados à americana, e mesmo a embaixada americana não permite que uma ambulância marroquina preste socorro à mulher, que precisa esperar horas pelo helicóptero enviado pelo governo americano.

O ataque à americana acaba também desencadeando uma pequena crise de nível mundial, pois o governo americano afirma que os responsáveis pelo atentado foram terroristas marroquinos (o que pode ser até uma certa crítica irônica à política externa praticada pelos Estados Unidos já há muitas décadas), acusação o governo marroquino nega veementemente.

Outro exemplo de choque cultural se dá quando as crianças americanas acham, no mínimo, nojento quando um parente da babá, no México, mata uma galinha com as mãos, já que elas estão mais acostumadas e comprar a galinha, já morta, no supermercado (como a classe média das cidades brasileiras, aliás).

O filme acaba por não dar um julgamento definitivo sobre a globalização, focando-se mais em demonstrar que ela existe e que seus efeitos podem ser mais intensos do que é comumente imaginado. Por último, vale ressaltar que Babel mereceu, sem dúvida, o Oscar de melhor filme do ano conferido, injustamente, para o filme Os Infiltrados, de Martin Scorsese.
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"(...) eu me livrei daquilo que não-faz-parte-de-mim em minha natureza. Não faz parte de mim o idealismo: (...) onde vós vedes coisas ideais, eu vejo - coisas humanas, ah, coisas demasiadamente humanas!" - Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 14 de junho de 2007

A morte - La commare secca

(Trabalho feito em maio de 2007 para a cadeira de história do cinema.)

Sinopse descritiva:
A morte (La commare secca, Bernardo Bertolucci, Itália, 1962)
À margem do rio Tibre, na periferia de Roma, é encontrado um corpo de uma prostituta assassinada. A polícia faz vários interrogatórios com uma série de suspeitos para tentar desvendar o caso. O policial, cujo rosto não aparece, sabe que cada um deles passara pelo parque Paolino, o último lugar que a prostituta se encontrava com vida. Cada um conta como foi seu dia até chegar ao parque na noite do assassinato. Primeiro um assaltante relata a sua história, depois um ex-condenado, um soldado, o homem dos chinelos de madeira e Pipito, um jovem carente da periferia. As histórias acontecem em flashbacks e são intercaladas com a prostituta acordando no fim da tarde com um temporal. Todos os relatos são divididos em antes e depois do temporal, que serve para marcar o início da noite. No final, a polícia descobre que um homossexual foi testemunha do assassinato e essa testemunha reconhece o assassino e ele é preso.

Resenha:
O filme conta a história do assassinato de uma prostituta não muito jovem através de inúmeros flashbacks que ocorrem nos depoimentos dos suspeitos, ao estilo de Rashomon, de Akira Kurosawa (Bertolucci afirma que não tinha visto o filme do japonês antes de filmar A morte). Vemos como um jovem assaltante foi parar no último lugar em que a prostituta fora vista com vida, e não só ele, mas todos os outros personagens suspeitos do assassinato. Aos 21 anos de idade, Bertolucci teve o desafio de filmar essa história, de Pier Paolo Pasolini – Bertolucci trabalhou como assistente de produção no bem sucedido Acattone, dirigido por Pasolini -, e fazer com que esse seu primeiro filme fosse parecido com os próprios filmes de seu mentor de cinema. Entretanto, ele tinha que unir essa tentativa de fazer um filme “pasoliniano” com o seu estilo próprio, que estava surgindo. Será que Bertolucci conseguiu?

Tendo muita liberdade criativa para dirigir o filme, Bertolucci optou por fazer muitos movimentos de câmera. Mesmo em momentos em que não há deslocamento de personagens a câmera se movimenta. De acordo com o diretor, ele quis mostrar que nunca estamos parados seja fisicamente ou psicologicamente, estamos em constante modificação e evolução, logo os movimentos de câmera aproximariam o espectador dos personagens em suas dúvidas, mentiras, tristezas e, é claro, movimentação física. Ele conseguiu esse efeito; entretanto, nem sempre os movimentos de travelling, panorâmica e zoom funcionam. Não é raro o momento em que a imagem fica embaralhada e confusa, beirando a tosquice. Além disso, em outros momentos a câmera treme muito, fica instável, parecendo um filme amador. Todavia, o dinamismo do dia dos suspeitos foi alcançado e, com isso, Bertolucci conseguiu mostrar seu estilo, diferenciando-se muito do estilo frontal-religioso do seu mentor Pasolini.

Bertolucci disse que quis mostrar, com o filme, o passar do tempo, o decorrer do dia de cada personagem e como suas vidas eram, chegando a dar muito mais importância a isso do que à solução assassinato em si. As cenas dos jovens Francolicchio e Pipito com duas moças são o principal exemplo disso: os jovens passando fome, as conversas despreocupadas, a célebre dança das duas moças quando os garotos estão com vergonha e, é claro, do ápice do flashback deles, quando eles vão atrás de um homossexual só para conseguirem dinheiro. Com isso, o diretor fez uma admirável crítica social. Ele mostrou como os jovens que estavam à margem da sociedade romana do início da década de 60 sofriam, e como essa sociedade estava se corrompendo aos poucos. E através dos outros personagens vemos que toda a periferia de Roma estava infectada com essa perda de valores (o cafetão bon-vivant; o soldado solitário, desabrigado e desesperado; o ladrão). O filme mostra inclusive, nas cenas em locações externas (o Coliseu, por exemplo) pessoas reais interagindo com personagens, dando até mesmo um aspecto documental do caráter do povo.

Sendo poeta, Bertolucci quis fazer não um simples filme narrativo, mas um filme lírico. Desde a seqüência de abertura do filme, em que vemos papel voando por áreas desoladas da periferia de Roma e o corpo da prostituta, à seqüência final, em que o assassino é capturado em um baile, percebe-se esse lirismo de Bertolucci. Um lirismo pessimista quanto ao futuro da gente humilde italiana. Essa “aura” que Bertolucci pôs em seu filme também pode ser vista na cena em que a prostituta acorda com um temporal, temporal esse que acontece no crepúsculo do dia e marca o início da noite, o início do fim. As intercalações dos flashbacks com os trechos dessa cena dão certo retorno no tempo, onde ele estaria parado, a calmaria, preparando-se para o grande acontecimento. A certa quebra de ritmo que ocorre funciona muito bem e só adiciona ao espírito poético do filme, a montagem ficou, portanto, muito boa, pois conseguiu transmitir o que o diretor pensou, tornando o lirismo imaginado por Bertolucci mais tangível ainda. O espectador consegue sentir o impacto daquela morte e como a sociedade está corroída e, na visão pessimista do diretor, sem uma solução aparente. Aspecto que também é ressaltado pela bela música de Piero Piccioni e Carlo Rostichelli, que tem uma melodia bonita, mas depressiva.

A morte, com todo o seu lirismo, sua crítica social e movimentos de câmera ousados e planos-seqüência interessantes, conseguiu, por isso, dar início à carreira do brilhante diretor Bernardo Bertolucci. O filme pode não ter sido um sucesso nas críticas italianas, que acharam o filme “pasoliniano” demais, mas a crítica internacional aclamou o filme, dizendo que era uma obra fantástica e que entraria para a história do cinema italiano. A crítica internacional estava corretíssima, e A morte é um filme que se tornou indispensável para quem quer entender e estudar o diretor italiano e a sociedade da época.

A morte
Drama
Itália, 1962
93 min
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Frankly, my dear, I don't give a damn - Frase clássica do ...E o vento levou.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Munique

Um dos melhores filmes de Steven Spielberg, Munique conta a história de um grupo de assassinos contratados pelo governo israelense para vingar o ataque à comitiva deles nas Olimpíadas de Munique em 1972.

O diretor soube contar a história de seu filme muito bem. Não poupa o espectador, fazendo tomadas cruas e violentas. Inclusive uma um tanto morbidamente bela, em que o sangue se mistura com o leite derramado. Spielberg recriou o estilo narrativo do cinema da década de 70, com muitos zooms e imagem, às vezes, meio tosca. O diretor soube intercalar muito bem cenas do ataque à vila olímpica, cenas de arquivo e o filme em si. Ele mostrou, com tudo isso, por que é considerado um dos melhores diretores de todos os tempos.

Entretanto, Spielberg não tabalhou sozinho e teve o habitual apoio de Janusz Kaminski, diretor de fotografia, para recriar o ambiente anos 70 já citado. Kaminski fez planos muito bonitos (o do reflexo no carro). Escolheu negativo de tungstênio (suposição minha baseado no que estou aprendendo na puc - o que interessa é o efeito do filme), deixando a imagem azulada em vários momentos e com superexposição, o que causa um efeito de agonia. Outras passagens amareladas também são interessantes. E o curioso é a parte em que Avner vai conhecer o papa, lá na casa de campo a imagem fica sem efeito algum, o que pode ser interpretado de diferentes formas... (pra mim é só a visão da família que estava faltando ao protagonista).

Além desses aspectos técnicos, não podemos deixar de falar dos atores, ressaltando o trabalho de Eric Bana como Avner. Desde Tróia eu o considero um puta ator e nesse filme tive a oportunidade de confirmar; ele trabalhou muitíssimo bem (a cena em que ele fala com a filha pelo telefone é comovente, a conversa com um terrorista intrigante). A mulher que interpretou Golda Meir, a primeira-ministra de Israel naquela época, também consegue cativar com pouquíssimo tempo na tela. Daniel Craig não fez mais do que o suficiente. E o cara que fez o presidente russo nA Soma de Todos os Medos atuou tri bem também.

Mas deixemos de puxar o saco da equipe... Reflitamos!

Nessa obra de arte, Spielberg ao invés de delimitar, como fizera em outros filmes, o bem e o mal, faz com que não saibamos que lado apoiar. Seria muito fácil um diretor judeu apoiar Israel, mas ele foi corajoso e mostrou os dois lados sem tomar partido (na verdade, eu até acho que ele foi um pouco contrário à causa isralense na última cena do filme, mas infimamente). Causando um desconforto crescente conforme o tempo (do filme) passa e vemos o protagonista, Avner, também ter essas dúvidas de caráter moral. Várias perguntas são postas no decorrer do filme e todas sem resposta, inquietando-nos. Será que o uso da violência para revidar é válido? Será que a violência sequer pode ser utilizada? Quem será que está por trás das informações que o prot. recebe? Como manter a integridade quando nenhum Estado parece manter? Até que ponto uma retaliação pode ser feita sem exagero? Etc, etc, etc...

Essas e muitas outras questões angustiantes são apresentadas no filme, mas o que mais me chamou a atenção (e que certamente foi o principal do filme) foi o conflito Israel x Palestina. Em certos momentos de brilhantismo da montagem e do diretor vemos que várias ações que de início consideramos corretas (devemos nos vingar dos brutais terroristas!) também estão sendo praticadas pelos "heróis", os terroristas serão mais vítimas do conflito milenar, como também foram os atletas mortos. Evidentemente, o diretor não mostra de forma alguma quem começou a briga e faz questão de ressaltar o fato de que isso é um ciclo, um revida o golpe do outro de forma mais violenta ainda (o próprio atentado nas Olimpíadas não seria uma retaliação a bombardeios israelenses?) mostrando que a cada assassinato cometido pelo grupo de Avner, os terroristas matavam mais gente ainda. (Quando é que isso terá um fim?!) Um ciclo vicioso de medidas mais cruéis conforme o tempo passa.

Essas atitudes impiedosas exemplificadas pelo filme têm, porém, motivações. E o incrível do filme, é que ele mostra o quão parecidas as motivações dos dois lados são. Em certos momentos parece que estamos vendo o terrorista falando pela boca de uma personagem isralense (só queremos uma terra para viver, sermos felizes. Devemos morrer por isso...). E essa semelhança torna a questão sobre quem está correto ainda mais difícil de ser respondida - se é que pode ser, né.

Bom, Munique é um filme brilhante. Deve ser assistido por todo o mundo, principalmente pelos isralenses e pelos palestinos. Eu ainda gostaria de dizer, a favor do Cinema, que esse filme me fez mudar minha visão sobre o conflito daquela região. Antes eu apoiava, por razões culturais, os israelenses e, ao contrário do que eu achava que aconteceria após um filme do Spielberg, eu mudei a minha opinião. Obviamente não concordo com as ações terroristas dos palestinos, mas acho que a causa deles é tão ou mais importante do que a de Israel e a de muitos outros países/nações. A pergunta deixada em aberto no filme e que causa a inquietação geral é: Será que há legitimidade nos ataques de ambos os lados? Será que se pode matar em nome de uma causa maior e legítima? Arre, esse filme é inquietante e abre muitas perguntas, não saciando o espectador, deixando-nos aflitos.

Munique
EUA
Drama
quase 3h
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Eu tinha uma frase legal do Voltaire pra colocar aqui, só que eu a esqueci, lembrem-me disso que depois a coloco!

sábado, 9 de junho de 2007

A Arte de Escrever - Arthur Schopenhauer

O livro A Arte de Escrever, de Arthur Schopenhauer, não é um livro. São cinco textos retirados de outra obra dele. Os títulos dos textos são: Sobre a erudição e os eruditos (über Gelehrsamkeit und Gelehrte); Pensar por si mesmo (Selbstdenken); Sobre a escrita e o estilo (über Schriftstellerei und Stil); Sobre a leitura e os livros (über Lesen und Bücher); Sobre a linguagem e as palavras (über Sprache und Worte).

Por enquanto, eu li apenas os dois primeiros textos, e, apesar de eu já ter pensado algumas das idéias presentes no livro, outras são, para mim, novas e bastante interessantes.

O primeiro texto diferencia os verdadeiros cientistas e pensadores dos “falsos eruditos”, ou seja, aqueles que decoram tudo sobre determinado assunto e pegam apenas pensamentos prontos através de livros e de outras pessoas.

Em seguida, critica a crescente não-utilização do latim no meio científico. A princípio, o argumento me pareceu um tanto absurdo, e eu cheguei a pensar: por que diabos uma língua morta deveria ser usada para o conhecimento científico? Mas, conforme o autor foi apresentando os argumentos, percebe-se que ele tem razão. Ele defende o latim e o grego porque eram as línguas usadas pelo meio científico na época dele, mas os motivos para a utilização de uma língua única permanecem atuais. Através do uso de uma língua universal e imutável, os cientistas e pensadores do mundo todo poderiam entender o que seus colegas escrevem sem depender de uma tradução, que sempre distorce, em maior ou menor grau, o que o autor realmente quis dizer. Hoje em dia, pode-se dizer que o inglês está assumindo esse papel, mas, ao invés de o autor escrever seu texto naturalmente em inglês, o texto é traduzido por terceiros.

No segundo texto, pensar por si mesmo, Schopenhauer diz que o verdadeiro pensador pensa sozinho e tem suas próprias idéias, enquanto o erudito de enciclopédia pega pensamentos prontos dos outros e remenda todos em um conjunto heterogêneo e distorcido. Diz que o pensamento próprio é o único que realmente se integra ao sistema de pensamentos da pessoa, além de ser o único que a pessoa consegue compreender plenamente. Com isso, eu concordo bastante, e já pensava assim antes de ler, apesar de nunca ter visto isso formalizado, ou ter formalizado eu mesmo. Às vezes, podemos até achar interessante o que lemos, mas acabamos nos esquecendo posteriormente, enquanto as conclusões a que chegamos com esforço próprio acabam se fixando na nossa mente e fazendo parte do nosso modo de enxergar o mundo. Por isso, Schpenhauer diz que o excesso de leitura (ou seja, o excesso de pensamento alheio) pode prejudicar a capacidade do pensamento próprio, embora de jeito nenhum o autor despreze a leitura. Ele apenas afirma que o pensamento próprio tem muito mais valor para a pessoa do que algo que ela pega de outra.

Sobre o estilo de escrever do autor, acho que às vezes ele usa analogias para explicar conclusões a que ele chegou, mas não apresenta os argumentos que levaram à conclusão. Eu consegui compreender as analogias justamente por já estar familiarizado com o pensamento do autor, já que já tive essas idéias antes, mas isso acaba prejudicando seriamente o entendimento do conteúdo do livro, tanto ou mais do que as traduções que ele tanto critica (apesar de eu mesmo estar lendo os textos traduzidos).

Quando eu ler os outros três textos, eu posto sobre eles aqui (a não ser que eu ache que são muito ruins, mas acho isso improvável).

Por último, gostaria apenas de dizer que o tradutor do Word é uma bosta e que eu acho que the Cure é um saco e que a estética deles é péssima. Mas não levem a mal, é apenas a minha opinião (e de quem mais poderia ser? Duh!).

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"Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!" - Arthur Schopenhauer, sobre os "eruditos de enciclopédia"

terça-feira, 5 de junho de 2007

Moloch

Hoje eu assisti ao filme Moloch, que fala sobre a vida pessoal de Hitler e Eva Braun em um final de semana de 1942. Antes de mais nada, gostaria de colocar que o filme é uma bosta deixa a desejar em alguns momentos. Ou em todos os momentos, sei lá.

Bem, a cena inicial mostra a Eva Braun dançando pelada na mureta de um terraço de uma casa gigante no topo de uma montanha no inverno alemão, durante uns 5 minutos. Seria a cena mais interessante do filme, se a Eva não fosse feia e gorda.

O Hitler é mostrado como um idiota incapaz de articular duas idéias, e o Goebbels parece um anão de circo, em todos os sentidos. As conversas seguem um roteiro básico: primeiro, os personagens se encontram, e ninguém fala nada; em seguida, alguém fala alguma coisa bem idiota; os personagens permanecem em silêncio, cada um pensando na resposta mais absurda e incoerente possível; então, todos falam ao mesmo tempo e, por último, o Hitler fica puteado furioso e dá um discurso sobre como os alemães são superiores (ou sobre por que os tchecos têm bigodes que crescem pra baixo).

O filme é insuportável, tem várias cenas que não fazem sentido nenhum, e o roteiro não parece seguir nenhuma lógica definida. Se as cenas fossem mostradas na ordem inversa, do final para o começo, não faria absolutamente nenhuma diferença, tirando o fato de que o Hitler iria embora da casinha antes de chegar.

Comparado com “A Queda” (der Untergang), o filme é um lixo. Mas se não comparar, é um lixo também. Além disso, vale comentar que durante todo o filme ninguém diz um único “Heil Hitler!”, nem nada semelhante. E o discurso do Hitler de camiseta regata e bermuda foi absolutamente ridículo. A cena do Hitler hipocondríaco foi digna do Zorra Total. O filme é um saco não correspondeu às minhas expectativas.

Moloch

Alemanha/Rússia

1999

+- 105 minutos

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Campanha Anti-bloqueio

Vi por aí um site contra o bloqueio de celulares, que impede que os aparelhos comprados em uma operadora sejam habilitados nas empresas concorrentes. Como tinha gente famosa nas fotos do site, logo vi que deveria ser ação de alguma operadora. Não errei. Lá embaixo, em um quadradinho que diz "Defendem esta causa" está escrito "Oi".

Genial. Além de passar a imagem de empresa boazinha e altruísta pra ganhar um monte de clientes (vai ganhar mesmo), acaba forçando as concorrentes pararem de bloquear os celulares (ou perderem clientes). Independentemente dos objetivos (financeiros), a idéia é interessante para a sociedade em geral. O bloqueio dos celulares é um saco, e aqui em casa mesmo tínhamos um aparelho da Claro, e teríamos de pagar 40 reais para podermos usá-lo pela Tim.

O que falta agora é uma operadora que respeite os clientes. Para quem não sabe, a maioria dos casos no Tribunal de Pequenas Causas tratam de abusos das operadoras de celular, e o mesmo vale para as reclamações no Procon. E isso nunca vai sair na mídia, pois as operadoras anunciam em todo veículo possível.

Mas já é um começo.

O Enigma de Kaspar Hauser

Hoje aluguei esse filme alemão, do diretor Werner Herzog. Definitivamente, não é um filme no estilo blockbuster, e a maioria das pessoas o consideraria chato. A história (baseada em fatos reais) é sobre um homem que vivia em cativeiro, até que seu “dono” (pois ninguém sabe exatamente a sua origem) o levou para o centro da cidade de Nuremberg e o largou lá, apenas com uma carta na mão explicando que o homem nunca tinha convivido com ninguém. Depois de passar um tempo com uma família simples, ele se muda para a casa de um homem, cujo nome não me lembro, que o ensina a falar, ler, escrever, tocar piano, etc.

Kaspar, que nunca havia tido contato com a sociedade, estranha as convenções sociais, que, devido a seu pensamento ingênuo e infantil, acaba escandalizando as pessoas da alta sociedade. Kaspar não entende porque deve freqüentar a igreja; diz que acha os cantos horríveis e não vê sentido no que o pastor fala. Há muitas passagens nesse sentido, mostrando como o personagem principal enxergava o mundo de ser modo diferente e, podemos dizer, imparcial.

No final do texto, eu conto aqui algumas das passagens mais interessantes, que beiram o cômico, já que, dos quase ninguéns que vão ler este texto, provavelmente nenhum vai se prestar a ver o filme.

O filme traz algumas cenas legais de paisagem, alguma música clássica (a música tema é o Cânone de Pachelbel – clichê máximo), e os cenários são legais – os campos, paisagens e a cidade antiga (o filme se passa em mil oitocentos e mais ou menos trinta). O título original do filme, em alemão, pode ser traduzido como “cada um por si e Deus contra todos” (Jeder für sich und Gott gegen alle), mas os tradutores brasileiros são geniais, e criam os melhores e mais criativos títulos do mundo.

Bom, não sou muito bom em escrever críticas de cinema, então vou colocar aqui as passagens mais interessantes:

1) Cena da Maçã – O homem que acolheu Kaspar tenta explicar a este o amadurecimento da fruta, mas seu protegido diz-lhe que as maçãs estão cansadas e desejam dormir. O homem explica que as maçãs não são vivas, e fazem apenas o que os homens querem, e atira a maçã, que rola e entra no meio de alguns arbustos. Kaspar diz então que a maçã fugiu para o mato. Em uma nova tentativa, o homem pede para seu amigo colocar o pé no caminho da maçã, para que ela não fosse para o mato, e demonstrasse o poder dos homens sobre a natureza. Ele atira a maçã, que bate no chão e passa por cima do pé do outro. Kaspar então exclama, maravilhado: “Mas esta é uma maçã muito esperta!”.

2) Cena da Lógica – Um homem que deseja estudar Kaspar faz-lhe uma pergunta lógica para analisar sua capacidade de raciocínio. A questão é mais ou menos assim: existem duas aldeias; em uma, todos falam a verdade, e, em outra, todos mentem. Se alguém encontra um homem, e deseja saber de qual cidade ele vem, só podendo fazer uma pergunta, qual pergunta seria essa?

Quando Kaspar não responde, o homem diz a resposta, que é algo que envolve uma pergunta com dupla negação. Kaspar então diz que há outra pergunta possível. Ele perguntaria para o homem: “você é uma rã?”, e a resposta do cara esclareceria de qual aldeia ele era. O estudioso, então, fica irritado, e diz que a resposta de Kaspar não é lógica e é inaceitável.

3) Carinha da Burocracia – Um dos personagens não toma partido em nenhum acontecimento, mas apenas registra tudo. Enquanto todas as situações acontecem, ele toma nota de tudo, não deixa passar um detalhe, mas não se envolve em absolutamente nada. No final do filme, ele se gaba, pois vai fazer o mais perfeito registro de ocorrência jamais feito. Não tem o mesmo efeito contando, mas é bem cômico.


O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen alle)
Alemanha
1974
Pouco mais de uma hora e meia

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"Mas que maçãs espertas!" - Kaspar Hauser

sábado, 2 de junho de 2007

Peixe grande e suas histórias maravilhosas

Depois de muito tempo querendo ver esse filme de Tim Burton, bom, eu o finalmente vi. E posso dizer, sem sombra de dúvida, que o filme é fantástico (em todos os possíveis sentidos), superou e muito minhas expectativas.


O filme conta a história de Edward Bloom, um homem sempre confiante e otimista que conta histórias de sua vida com muita fantasia. Entretanto, é justamente por isso que seu filho Will briga com ele, pelo fato de não saber de nenhuma história "real" sobre seu pai. E o conflito vai por aí... O filho querendo descobrir quem é o pai, quando este está morrendo.


Não sei como contar/resenhar essa história sem talvez contar algo importante, mas creio que não há problema, não pra esse filme. Mas vou deixar no final os comentários que talvez envolvam detalhes do final...


O roteiro é belíssimo (cada passagem é mais incrível que a outra), a fotografia também, aliás, sublime. A direção de arte é ótima. E a direção não deixa por menos... As cenas são muito bonitas visualmente e tudo isso é coroado com interpretações magnânimas dos atores (Ewan McGregor interpreta Eddie Bloom jovem).

Arre, como eu já fiz várias vezes antes: dane-se a coesão textual.

O filme é muito bonito, retratando a imaginação de Edward Bloom. Como a vida simples dele não tinha graça, como ele pensava mais alto... claro, tudo isso tá no filme, mas o que eu acho principal é o fato da relação entre pai e filho. Edward sempre contou pro filho as histórias fantásticas sobre sua vida, porque queria "proteger" o filho da verdade, mostrar como a vida é incrível, tudo o que ele fez foi para mostrar o quão especial a vida é, esse tipo de coisa. E isso é admirável. Além disso, quando Will insiste em saber a "realidade", ele não percebe que as histórias que seu pai conta é que são a realidade, a realidade dele tanto como vontade quanto uma realidade de pai afetuoso que quer o melhor pro filho.

E... Quando ele...
Bah... Não posso escrever mais do que isso sem contar o final e, por conseguinte, sem me emocionar, pois o final é muitíssimo bonito e, confesso, não pude segurar as lágrimas ao vê-lo... Vale muito a pena ver esse filme. E, é claro, depois disso, abraçar seu pai.


Big Fish
EUA
+/- 120min


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"... Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais." - Elis Regina em "Como nossos pais"