quinta-feira, 14 de junho de 2007

A morte - La commare secca

(Trabalho feito em maio de 2007 para a cadeira de história do cinema.)

Sinopse descritiva:
A morte (La commare secca, Bernardo Bertolucci, Itália, 1962)
À margem do rio Tibre, na periferia de Roma, é encontrado um corpo de uma prostituta assassinada. A polícia faz vários interrogatórios com uma série de suspeitos para tentar desvendar o caso. O policial, cujo rosto não aparece, sabe que cada um deles passara pelo parque Paolino, o último lugar que a prostituta se encontrava com vida. Cada um conta como foi seu dia até chegar ao parque na noite do assassinato. Primeiro um assaltante relata a sua história, depois um ex-condenado, um soldado, o homem dos chinelos de madeira e Pipito, um jovem carente da periferia. As histórias acontecem em flashbacks e são intercaladas com a prostituta acordando no fim da tarde com um temporal. Todos os relatos são divididos em antes e depois do temporal, que serve para marcar o início da noite. No final, a polícia descobre que um homossexual foi testemunha do assassinato e essa testemunha reconhece o assassino e ele é preso.

Resenha:
O filme conta a história do assassinato de uma prostituta não muito jovem através de inúmeros flashbacks que ocorrem nos depoimentos dos suspeitos, ao estilo de Rashomon, de Akira Kurosawa (Bertolucci afirma que não tinha visto o filme do japonês antes de filmar A morte). Vemos como um jovem assaltante foi parar no último lugar em que a prostituta fora vista com vida, e não só ele, mas todos os outros personagens suspeitos do assassinato. Aos 21 anos de idade, Bertolucci teve o desafio de filmar essa história, de Pier Paolo Pasolini – Bertolucci trabalhou como assistente de produção no bem sucedido Acattone, dirigido por Pasolini -, e fazer com que esse seu primeiro filme fosse parecido com os próprios filmes de seu mentor de cinema. Entretanto, ele tinha que unir essa tentativa de fazer um filme “pasoliniano” com o seu estilo próprio, que estava surgindo. Será que Bertolucci conseguiu?

Tendo muita liberdade criativa para dirigir o filme, Bertolucci optou por fazer muitos movimentos de câmera. Mesmo em momentos em que não há deslocamento de personagens a câmera se movimenta. De acordo com o diretor, ele quis mostrar que nunca estamos parados seja fisicamente ou psicologicamente, estamos em constante modificação e evolução, logo os movimentos de câmera aproximariam o espectador dos personagens em suas dúvidas, mentiras, tristezas e, é claro, movimentação física. Ele conseguiu esse efeito; entretanto, nem sempre os movimentos de travelling, panorâmica e zoom funcionam. Não é raro o momento em que a imagem fica embaralhada e confusa, beirando a tosquice. Além disso, em outros momentos a câmera treme muito, fica instável, parecendo um filme amador. Todavia, o dinamismo do dia dos suspeitos foi alcançado e, com isso, Bertolucci conseguiu mostrar seu estilo, diferenciando-se muito do estilo frontal-religioso do seu mentor Pasolini.

Bertolucci disse que quis mostrar, com o filme, o passar do tempo, o decorrer do dia de cada personagem e como suas vidas eram, chegando a dar muito mais importância a isso do que à solução assassinato em si. As cenas dos jovens Francolicchio e Pipito com duas moças são o principal exemplo disso: os jovens passando fome, as conversas despreocupadas, a célebre dança das duas moças quando os garotos estão com vergonha e, é claro, do ápice do flashback deles, quando eles vão atrás de um homossexual só para conseguirem dinheiro. Com isso, o diretor fez uma admirável crítica social. Ele mostrou como os jovens que estavam à margem da sociedade romana do início da década de 60 sofriam, e como essa sociedade estava se corrompendo aos poucos. E através dos outros personagens vemos que toda a periferia de Roma estava infectada com essa perda de valores (o cafetão bon-vivant; o soldado solitário, desabrigado e desesperado; o ladrão). O filme mostra inclusive, nas cenas em locações externas (o Coliseu, por exemplo) pessoas reais interagindo com personagens, dando até mesmo um aspecto documental do caráter do povo.

Sendo poeta, Bertolucci quis fazer não um simples filme narrativo, mas um filme lírico. Desde a seqüência de abertura do filme, em que vemos papel voando por áreas desoladas da periferia de Roma e o corpo da prostituta, à seqüência final, em que o assassino é capturado em um baile, percebe-se esse lirismo de Bertolucci. Um lirismo pessimista quanto ao futuro da gente humilde italiana. Essa “aura” que Bertolucci pôs em seu filme também pode ser vista na cena em que a prostituta acorda com um temporal, temporal esse que acontece no crepúsculo do dia e marca o início da noite, o início do fim. As intercalações dos flashbacks com os trechos dessa cena dão certo retorno no tempo, onde ele estaria parado, a calmaria, preparando-se para o grande acontecimento. A certa quebra de ritmo que ocorre funciona muito bem e só adiciona ao espírito poético do filme, a montagem ficou, portanto, muito boa, pois conseguiu transmitir o que o diretor pensou, tornando o lirismo imaginado por Bertolucci mais tangível ainda. O espectador consegue sentir o impacto daquela morte e como a sociedade está corroída e, na visão pessimista do diretor, sem uma solução aparente. Aspecto que também é ressaltado pela bela música de Piero Piccioni e Carlo Rostichelli, que tem uma melodia bonita, mas depressiva.

A morte, com todo o seu lirismo, sua crítica social e movimentos de câmera ousados e planos-seqüência interessantes, conseguiu, por isso, dar início à carreira do brilhante diretor Bernardo Bertolucci. O filme pode não ter sido um sucesso nas críticas italianas, que acharam o filme “pasoliniano” demais, mas a crítica internacional aclamou o filme, dizendo que era uma obra fantástica e que entraria para a história do cinema italiano. A crítica internacional estava corretíssima, e A morte é um filme que se tornou indispensável para quem quer entender e estudar o diretor italiano e a sociedade da época.

A morte
Drama
Itália, 1962
93 min
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Frankly, my dear, I don't give a damn - Frase clássica do ...E o vento levou.

Um comentário:

bia disse...

não é à toa que recebeu 10 :D

;*