segunda-feira, 11 de junho de 2007

Munique

Um dos melhores filmes de Steven Spielberg, Munique conta a história de um grupo de assassinos contratados pelo governo israelense para vingar o ataque à comitiva deles nas Olimpíadas de Munique em 1972.

O diretor soube contar a história de seu filme muito bem. Não poupa o espectador, fazendo tomadas cruas e violentas. Inclusive uma um tanto morbidamente bela, em que o sangue se mistura com o leite derramado. Spielberg recriou o estilo narrativo do cinema da década de 70, com muitos zooms e imagem, às vezes, meio tosca. O diretor soube intercalar muito bem cenas do ataque à vila olímpica, cenas de arquivo e o filme em si. Ele mostrou, com tudo isso, por que é considerado um dos melhores diretores de todos os tempos.

Entretanto, Spielberg não tabalhou sozinho e teve o habitual apoio de Janusz Kaminski, diretor de fotografia, para recriar o ambiente anos 70 já citado. Kaminski fez planos muito bonitos (o do reflexo no carro). Escolheu negativo de tungstênio (suposição minha baseado no que estou aprendendo na puc - o que interessa é o efeito do filme), deixando a imagem azulada em vários momentos e com superexposição, o que causa um efeito de agonia. Outras passagens amareladas também são interessantes. E o curioso é a parte em que Avner vai conhecer o papa, lá na casa de campo a imagem fica sem efeito algum, o que pode ser interpretado de diferentes formas... (pra mim é só a visão da família que estava faltando ao protagonista).

Além desses aspectos técnicos, não podemos deixar de falar dos atores, ressaltando o trabalho de Eric Bana como Avner. Desde Tróia eu o considero um puta ator e nesse filme tive a oportunidade de confirmar; ele trabalhou muitíssimo bem (a cena em que ele fala com a filha pelo telefone é comovente, a conversa com um terrorista intrigante). A mulher que interpretou Golda Meir, a primeira-ministra de Israel naquela época, também consegue cativar com pouquíssimo tempo na tela. Daniel Craig não fez mais do que o suficiente. E o cara que fez o presidente russo nA Soma de Todos os Medos atuou tri bem também.

Mas deixemos de puxar o saco da equipe... Reflitamos!

Nessa obra de arte, Spielberg ao invés de delimitar, como fizera em outros filmes, o bem e o mal, faz com que não saibamos que lado apoiar. Seria muito fácil um diretor judeu apoiar Israel, mas ele foi corajoso e mostrou os dois lados sem tomar partido (na verdade, eu até acho que ele foi um pouco contrário à causa isralense na última cena do filme, mas infimamente). Causando um desconforto crescente conforme o tempo (do filme) passa e vemos o protagonista, Avner, também ter essas dúvidas de caráter moral. Várias perguntas são postas no decorrer do filme e todas sem resposta, inquietando-nos. Será que o uso da violência para revidar é válido? Será que a violência sequer pode ser utilizada? Quem será que está por trás das informações que o prot. recebe? Como manter a integridade quando nenhum Estado parece manter? Até que ponto uma retaliação pode ser feita sem exagero? Etc, etc, etc...

Essas e muitas outras questões angustiantes são apresentadas no filme, mas o que mais me chamou a atenção (e que certamente foi o principal do filme) foi o conflito Israel x Palestina. Em certos momentos de brilhantismo da montagem e do diretor vemos que várias ações que de início consideramos corretas (devemos nos vingar dos brutais terroristas!) também estão sendo praticadas pelos "heróis", os terroristas serão mais vítimas do conflito milenar, como também foram os atletas mortos. Evidentemente, o diretor não mostra de forma alguma quem começou a briga e faz questão de ressaltar o fato de que isso é um ciclo, um revida o golpe do outro de forma mais violenta ainda (o próprio atentado nas Olimpíadas não seria uma retaliação a bombardeios israelenses?) mostrando que a cada assassinato cometido pelo grupo de Avner, os terroristas matavam mais gente ainda. (Quando é que isso terá um fim?!) Um ciclo vicioso de medidas mais cruéis conforme o tempo passa.

Essas atitudes impiedosas exemplificadas pelo filme têm, porém, motivações. E o incrível do filme, é que ele mostra o quão parecidas as motivações dos dois lados são. Em certos momentos parece que estamos vendo o terrorista falando pela boca de uma personagem isralense (só queremos uma terra para viver, sermos felizes. Devemos morrer por isso...). E essa semelhança torna a questão sobre quem está correto ainda mais difícil de ser respondida - se é que pode ser, né.

Bom, Munique é um filme brilhante. Deve ser assistido por todo o mundo, principalmente pelos isralenses e pelos palestinos. Eu ainda gostaria de dizer, a favor do Cinema, que esse filme me fez mudar minha visão sobre o conflito daquela região. Antes eu apoiava, por razões culturais, os israelenses e, ao contrário do que eu achava que aconteceria após um filme do Spielberg, eu mudei a minha opinião. Obviamente não concordo com as ações terroristas dos palestinos, mas acho que a causa deles é tão ou mais importante do que a de Israel e a de muitos outros países/nações. A pergunta deixada em aberto no filme e que causa a inquietação geral é: Será que há legitimidade nos ataques de ambos os lados? Será que se pode matar em nome de uma causa maior e legítima? Arre, esse filme é inquietante e abre muitas perguntas, não saciando o espectador, deixando-nos aflitos.

Munique
EUA
Drama
quase 3h
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Eu tinha uma frase legal do Voltaire pra colocar aqui, só que eu a esqueci, lembrem-me disso que depois a coloco!

Um comentário:

bia disse...

SPOILER! eu quero ver esse filme, nem li o que tu escreveu mas garanto que tá foda