segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Laços de Família - Clarice Lispector

Descobri que ainda não tinha postado aqui o meu texto do búfalo! Sacrilégio!

Explico-me: depois de ler Laços de Família, no terceiro ano do ensino médio, achei que os contos careciam de um pouco mais de ação. Para resolver o problema, condensei todos os elementos principais de todo o livro em um só conto, forçando uma interação entre os personagens antes inexistente, ainda que o principal mérito do meu texto seja a redução de 134 páginas não apenas sem perda de conteúdo, mas ainda com acréscimo.

Obviamente, o texto não fará nenhum sentido para quem não leu o livro. Também não o fará para quem o leu, claro, mas estes, conhecendo a origem do texto, já têm suas expectativas em um nivel mais realista. Bom, aí vai o texto:

Laços de Família - abridged

Era um búfalo cego mascando merda. O búfalo era marrom. A merda era marrom. Ah, e o sentimento de estar mastigando a si próprio, em uma espécie de alimento masturbatório. E o búfalo cego mascava seu próprio dejeto, em busca de sua constante renovação. Um ciclo. Um ciclo de merda. O búfalo aos poucos se aproximou da galinha.

Epifania. Não. Epifânia. Sim, esse era o nome de galinha. E então, com um sentimento de inveja e auto-afirmação, a galinha perseguiu o búfalo. E o búfalo voava, de telhado em telhado, em busca de sua redenção. O búfalo voava, mascando sua merda, observando as rosas passarem lá fora. Pelos trilhos do bonde. E a galinha na busca do búfalo. Na busca da merda do búfalo, querendo tomar para si o que achava que lhe era de direito. Então, do telhado mais alto da cidade, o búfalo nadou de bicicleta até o ponto inicial da sua perseguição. E estancou, à espera do roubo de seus dejetos.

E a merda pôs um ovo. Sim, a merda pôs um ovo. E o búfalo cego olhou admirado, pois de seus metafóricos dejetos mentais, nascera um ovo. E a galinha Epifânia, que tinha pelo ovo mais direito e mais instinto do que pela merda, preferiu a merda. Pois esta lhe era proibida. Mas ficaram ambos olhando para o ovo. E o ovo pôs um ovo. Que pôs uma rosa. Que pôs um chicles, que grudou nos cascos do búfalo, que estava agora mastigando a galinha.

E assim a galinha alcançou o que almejava. Fazia agora parte da merda do búfalo. Mas o búfalo agora mascava o professor de matemática, e não era o que a galinha queria.

E então a galinha acordou, pois mesmo em devaneios já havia acontecido demais para sua vidinha vazia, tediosa e carente de ação.

E a galinha pôs um búfalo.

domingo, 18 de novembro de 2007

Opiniões: sou contra.

Outro dia, foi requerida a minha opinião sobre a lei de fidelidade partidária. Respondi, categoricamente: “Nenhuma.”.

Rostos incrédulos me questionavam em tom acusatório como eu podia não me interessar por um tema político que afeta a vida de todos nós. Respondo, então: “Não disse que não me importo, só disse que não tenho opinião.”. Prossegui: “Não tenho os conhecimentos necessários para antecipar as conseqüências de cada alternativa, e não sei o que faz vocês pensarem que vocês os têm.”. Viram só? Eu sou tão bom que ganho uma discussão mesmo quando não tenho nenhuma opinião.

Mas falando sério: as pessoas acham que serão consideradas estúpidas se não tiverem uma opinião formada sobre todos os assuntos imagináveis. Pois eu acho justamente o contrário: irritam-me as pessoas que têm opiniões sobre o que não entendem. Explico-me melhor: nada contra achar que uma ou outra alternativa possam ser a melhor solução para determinado problema, mas é estupidez defender publicamente uma opinião sem justificativas adequadas.

Todos os dias, incontáveis pessoas defendem inflamadamente opiniões sobre política, economia e sociedade. Curiosamente, são pessoas que nunca estudaram nem leram nada sobre política, economia e sociedade. É como se eu, que não entendo nada de futebol, me conferisse autoridade para opinar na escalação da Seleção.

Aqueles que acreditam que ter opinião sobre tudo é sinal de inteligência são donos de uma estupidez análoga à daqueles que acreditam que consultar dicionário é indicativo de burrice. Eu sei que ter opinião sobre tudo está na moda, mas basta lembrarmo-nos de que sunga com cinto já foi moda para percebermos que eu estou certo.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Medíocre

Taí, provavelmente a palavra mais deturpada da língua portuguesa. Ouço-a quase todos os dias, sempre em sentido pejorativo, desmarecedor. "Fulano é medíocre", tipo, Fulano é um imbecil, incompetente, comedor de bosta.

Pô, não entendo. Aliás, eu entendo. Os outros é que não entendem. E nem precisa ser um estudioso de etimologia pra perceber. Medíocre. Vem de médio. Medíocre, aquele que está na média. Não é nem bom, nem ruim. Não tem nada de mais. Ordinário. Sem gosto. Blé.

Mais de uma vez, escutei pseudo-gradações como "existem profissionais ótimos, profissionais medianos e profissionais medíocres". Tá, então. Eu só quero saber onde estão os ruins, que a gente encontra todo dia por aí.

Mudando de assunto: acabo de ver no Terra a notícia: BRA pára de voar e demite todos os funcionários.


Assim mesmo, sem maiores explicações. Tipo assim, parou de voar e demitiu todo mundo. Genial. Non-sense. Quando eu for um multi-trilhonários, e tiver um dia ruim, certamente eu vou entrar de porre no escritório e demitir todo mundo. É de pessoas sem-noção, insensatas assim mesmo, que o mundo precisa.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Os cafajestes

Os cafajestes (1962, Ruy Guerra)

sinopse descritiva


Noite. Jandir chega de carro perto de uma mulher, ele a convida para passar a noite com ele. Eles vão pro seu apartamento. Ele a sacaneia e diz que ela tem que ir embora mais cedo. Ela se veste e sai. Jandir a observa da janela e a mulher grita pra ele. Ele ri.

Manhã. Jandir folheia uns jornais na banca. Ele se encontra com Vavá, logo depois de haver ligado para alguma mulher combinando um encontro. Vavá lê o horóscopo em voz alta. Eles combinam o golpe e questões fotográficas. Jandir oferece uma dose alta de droga a Vavá para que esse pare de tremer. Eles vão para o lugar do encontro de Jandir com a tal mulher e Vavá se esconde no porta-malas. Leda, a mulher quem eles esperavam, chega e entra no carro. Jandir dirige o carro e grita instruções para Vavá, que ainda está no porta-malas, mas diz a Leda que é só um surto dele. Leda e Jandir conversam. Na praia, eles conversam mais um pouco, percebe-se que há uma relação amorosa entre eles. Ele a incita a nadar no mar sem roupa. Depois de titubear por um tempo, ela o faz. Quando ela está na água se banhando, Jandir sai com o carro e leva as roupas dela. Leda sai correndo atrás dele desesperada até se cansar. Vavá sai do porta-malas e Jandir volta com o carro. O carro dá voltas ao redor de Leda, enquanto Vavá tira fotos dela nua. Jandir devolve-lhe as roupas. Eles entram no carro e voltam para a estrada. Na estrada eles conversam e descobre-se o plano de Vavá e Jandir de subornar o tio do primeiro com as fotos da amante. Leda tenta jogar fora as drogas de Jandir, mas Vavá a impede. Eles chegam a um parque. Lá eles conversam sobre quanto cada um ganharia com o golpe e sobre sexo. Leda diz que eles não vão conseguir muito com o tio de Vavá, pois eles haviam brigado, além disso, ela não queria que ele saísse em vantagem para com ela e, por isso, sugere que façam o mesmo golpe com sua filha Vilma, prima de Vavá, que está em Cabo Frio. Eles vão pra lá.

Tarde. Jandir e Vavá vão para um forte. Lá eles fumam maconha, pois as pílulas estavam no carro. Vavá fala sobre coragem e percebe-se que ele mesmo não a tem. Vavá pergunta se Jandir desistiria do golpe em troca do conversível. Duas moças chegam. Elas conversam com eles. Jandir e Vavá se encontram com Leda e Vilma. Eles conversam no carro enquanto vão pra praia. Eles descem do carro. Do alto de uma duna, Leda observa Jandir tentando despir Vilma e Vavá tentando impedir Jandir. Jandir dá um soco em Vavá.

Noite. Depois de tirar as fotos, Jandir joga a câmera aos pés de Vilma. Leda entra com o carro dentro do mar. Vavá declara seu amor por Vilma, mas ela o rejeita alegando que quer alguém com coragem. Jandir e Leda fazem sexo. Vilma se esquiva de Vavá e entra no mar para se suicidar. Jandir a salva e a deita na areia, e Vilma se aproveita da situação. Jandir beija Vilma olhando para Leda e Vavá. Jandir transa com Vilma.

Manhã. Depois de conversar com Jandir, Vavá vaga pelas dunas dando tiro pro alto até cair no chão, nisso Vilma chega e eles se beijam. Jandir dirige na estrada, ele deixa Leda no meio do caminho. Ele escuta rádio até que a gasolina acaba. Ele caminha pela estrada.


Análise fílmica

A sociedade em Os cafajestes
Nos primeiros planos do filme, vemos luzes fora de foco e a câmera balançando, deixando-nos sem rumo, totalmente perdidos. Logo depois, a câmera mostra pessoas comuns ao passar pela cidade do Rio de Janeiro à noite. Somos apresentados, portanto, a rostos sem nome; são só mais algumas pessoas, nessa imensidão de mundo, que seriam irrelevantes para o mesmo, cada um com sua história, mas essa não afeta a grande sociedade nacional e internacional. Só que é exatamente essa a proposta do filme: contar uma história dessa gente banal que vive na cidade grande.

Através da história de Jandir e Vavá, percebemos um reflexo da sociedade fluminense da época. Vavá é o típico cafajeste, que não tem nada a perder e tudo a ganhar, veio de origem humilde e tenta dar um jeito de ganhar dinheiro fácil. Percebemos o quão ordinário ele é quando ele diz que “o conversível é como se fosse uma enxada”, pois ele ganha seu dinheiro se aproveitando de mulheres e fazendo negócios escusos, o carro seria sua ferramenta de trabalho. Outro momento em que fica claro que sua vida foi difícil, é quando ele fala para Vavá que ele, Vavá, não sabe o que é passar fome e frio, ou seja, Vavá não saberia ser pobre, enquanto ele, Jandir, já teria passado por tudo isso.

Por outro lado, Vavá é um jovem que sempre teve dinheiro, mas que nunca trabalhou por ele, pois esse vinha de seu pai. Entretanto, seu pai faliu e ele teria que arranjar um jeito de consegui-lo, mas sem trabalhar, afinal ele não saberia como nem o que fazer. Os dois personagens exemplificam a sociedade como um todo, mostrando a crescente criminalização (prostituição, agiotagem, etc) da camada inferior da sociedade e a alienação da classe média daquele Rio de Janeiro que recém deixara de ser a capital do país.

Próximo ao meio do filme, o diretor nos mostra crianças levando um pequeno caixão branco, onde, assim sendo, está uma criança morta. Essa curta cena é exibida logo após a realização do golpe dos cafajestes Jandir e Vavá. A introdução dela simboliza a perda da inocência, da ingenuidade. A crueza com que a câmera filma as crianças daquele humilde local mostra como a sociedade estava em degradação, as crianças cada vez mais cedo se acostumando à violência e a perdas incomensuráveis. É uma situação aparentemente sem retorno, tanto para Vavá e Jandir, quanto para a grande sociedade. Complementando isso, a personagem Leda diz logo no início do filme que perdeu o respeito próprio e desistiu da vida. Isso claramente exemplifica o tanto que a sociedade estava se corroendo e, pouco a pouco, perdendo as esperanças.

Em 1962, quando a película foi lançada, as bilheterias se encheram de pessoas que queriam ver o filme. Algumas detestaram, outras amaram. Mas o importante foi que eles puderam ver a eles mesmos, a sua própria sociedade na tela de cinema. Não é de se admirar, desse modo, que a censura que o produtor do filme fez tenha sido execrada. Não se pode modificar uma obra de arte que analisa, através do pequeno, a grande sociedade do Rio de Janeiro e do Brasil como um todo e sua importância.

Outro detalhe importante é o rádio do carro. No início do longa-metragem, Jandir quando está com Leda ao seu lado, desliga-o afirmando que é chato e irritante; só que, no final do filme, ele escuta o rádio por vários minutos. Essa é uma representação, no início, da falta de importância que as ações dele tem para o mundo, mas, ao final, percebemos que são relevantes sim, que ele faz parte dessa sociedade global conturbada. Ele deixa de ser um subproduto dos grandes conflitos, mas ele, em seu microcosmo, deve ser estimado, já que ele transporta uma visão de mundo, um arquétipo da classe baixa fluminense e brasileira. Jandir aceita isso no final do filme, mas sem querer mudar sua vida, ele vai continuar sendo ele mesmo; Vavá solucionou seu problema ao se relacionar com sua prima Vilma, Leda vai tentar nova vida em outro lugar do Rio, mas eles não vão deixar de ser eles mesmos.

Além disso, ao final do filme, Jandir desce de seu novo carro conversível e caminha pela estrada, uma vez que a gasolina estivesse acabada. Ele caminha em direção à câmera por um tempo. Esse fato simboliza a esperança de um futuro diferente, de que haja uma solução para os problemas dessa sociedade corrompida. Todavia, ele dá as costas para a câmera após ter caminhado um certo trecho e, finalmente, o cartão em que está escrito “fim” aparece. O personagem não dá as costas sem motivo; ele está negando a esperança, o futuro. Para ele e para o diretor a esperança é debalde, a sociedade está de um modo tão ruim que não tem mais volta – se estava assim em 1961, ano em que o filme foi produzido, imaginem o que Ruy Guerra não filmaria hoje em dia para representar a falta de esperança.



Ficha Técnica

Os cafajestes
Ficção, Longa-metragem
Brasil, 1962
35 mm, pb, sonoro
Duração: 100 min (2.774 metros)

Direção: Ruy Guerra
Argumento: Ruy Guerra, Miguel Torres
Roteiro: Ruy Guerra
Companhia produtora: Magnus Filmes
Produção: Gerson Tavares, Jece Valadão
Produtor associado: José Sanz
Música original: Luiz Bonfá
Fotografia: Tony Rabatoni
Montagem: Zélia Feijó Costa, Nello Melli Feijó
Desenho de produção: Aníbal A. de Almeida, Gerson Tavares
Maquiagem: Germaine Monteil
Gerente de produção: Alexandrino Franco
Assistentes de direção: Ivan de Souza, Sérgio Sanz de Souza
Segundo assistente de direção: Celso Luiz Nunes Amorim
Som: Geraldo José, Ângelo Riva
Efeitos sonoros: José Tavares
Operador de câmera: Tony Rabatoni
Assistentes de operador de câmera: Franciso Torturra, Jorge Varas
Continuidade: Celso Luiz Nunes Amorim
Letreiros: Ziraldo
Distribuição: Fama Filmes
Elenco: Jece Valadão (Jandir), Daniel Filho (Vavá), Norma Bengell (Leda), Lucy de Carvalho (Vilma), Glauce Rocha, Hugo Carvana, Per Aebel, Germana de Lamare, Marina Ferraz, Aline Silva e Fátima Somer.



PS.: O FILME É HORRÍVEL