domingo, 23 de dezembro de 2007

O ritual dos sádicos/ O despertar da besta

O filme discute, certamente, a perversão da sociedade, seus desejos mais profundos e seus pensamentos. Iniciando com uma mulher injetando LSD no seu pé, percebemos que será cheio de cenas chocantes, sendo essa apenas uma porta-voz de todas as seguintes. Na primeira metade do filme, acompanham-se vários casos de viciados em droga em seu cotidiano, revelando suas fantasias e seus medos. Na outra, vemos o experimento realizado pelo Dr. Sérgio e suas declarações.

Percebemos que alguns personagens que estavam na seqüência inicial aparecem depois como cobaias para a tal pesquisa. Uma dessas personagens, a jovem loira, é a mesma que logo no início estava se drogando. Depois, enquanto está sendo analisada pela experiência, vemos que ela enxerga mulheres escravas e um homem ensangüentado. Fica claro que para ela, ela não passa de uma serviçal, servindo sempre os homens (e às vezes até mesmo gosta disso). Porém, o homem com o rosto sujo de sangue seria um exemplo de seus desejos de vingança – um desejo de que ela tem vergonha e, por isso, grita quando se depara com ele. Numa outra fase de sua alucinação, em que ela é espancada por Zé do Caixão, ela se encontra em uma espécie de depósito de estátuas religiosas, sendo que a que está mais evidente é a de Santo Expedito, mais conhecido com o santo das causas impossíveis. Desse fato, deduz-se que a salvação dessa jovem é quase impossível, sua depravação e ódio são tão extremos, que sua alma já estaria completamente contaminada, e somente a religião poderia salvá-la.

Entretanto, a religião também aparece em outro momento, na primeira metade: um falso apóstolo recita versos da Bíblia enquanto uma moça se droga e, logo depois, mata-a quando insere seu cajado em sua genitália. Desse fato depreende-se que a falsa religião, ou a religião de massas, teria o mesmo efeito da droga, com capacidades até mesmo superiores: a de causar a morte.

Outro momento em que percebemos como a sociedade está corrompida é quando, no início, o homem com bigode manda que três mulheres se dispam, fiquem de quatro e, logo depois, as chuta nas nádegas. Posteriormente, vemos que, em suas alucinações, ele imagina muitas mulheres sendo chicoteadas por homens e ele caminhando por sobre as mulheres. Com esse personagem, o diretor critica a sociedade chauvinista da década de 60. Ele enfatiza isso quando, numa discoteca, um homem abusa de duas mulheres. Revela-nos que, além da falsa religião e da droga em si, o sexo pode ser considerado um entorpecente, podendo viciar.

Além dessas três formas de vício, o filme também mostra que a comida não deixa de ser uma delas. Aliás, na cena em que isso acontece – quando um homem gordo come macarrão sem parar – o diretor tem um de seus momentos de maior brilhantismo ao homenagear Sergei Eisenstein, pois os planos do homem comendo são intercalados com imagens de um porco, assim como Eisenstein fez em Outubro e A greve, intercalando imagens de um pavão e de bois sendo abatidos, respectivamente. A cena não termina ali, ainda vemos outros animais aparecendo e simbolizando as atitudes do homem: um cão pidão e um cavalo relinchando.

No ponto de virada do filme, um repórter faz uma pergunta ao publico: “Zé do caixão, um cineasta ou farsante?”. Podem alegar que seus jump-cuts e quebras de eixo são amadorismo, mas seria ingenuidade tal constatação, afinal, são esses “defeitos” que tornam o filme mais rico e genial, pois os usa com maestria. Poranto, nessa brilhante película, em que há tanto sobre o que se pensar, uma complexidade experimental e psicodélica, vemos que ele é um ótimo cineasta e definitivamente deveria constar no rol dos maiores do Brasil.




O ritual dos sádicos
de José Mojica Marins
Brasil, 1970
93 min

Um comentário:

bia disse...

bah, eu tô com medo de ver esse filme. parece bizarro demais =P