sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coco avant Chanel

Fui ver, ontem, a biografia da Chanel lá no Arteplex, e, como sempre, gastei quatro vezes mais em comida do que com o ingresso – não que isso tenha alguma relevância para a resenha. Parece que já existiam filmes sobre a estilista, mas eram ruins, ou algo assim. Or so i heard.

Bom, a primeira coisa que a gente estranha no filme é a ausência do Gérard Depardieu. Eu sempre achei que a presença dele em filmes franceses fosse um pré-requisito do Ministério da Cultura de lá para financiar as obras, ou algo assim. Onipresente, esse cara.

Bom, começando a falar sério, o filme é um pouco ousado ao se focar apenas na Coco jovem, mas, afinal, essa era mesmo a proposta – avant Chanel, e não après. A obra nos mostra como Gabrielle Chanel deixa de ser uma cantora de cabaret em alguma cidade da França para se tornar uma estilista de renome, vencendo os obstáculos sem cair nos clichês do tipo “eu era pobre, ninguém acreditava em mim e eu mostrei pra eles”. Chanel enfrentou as humilhações de um milionário - que a utilizava para divertir seus convidados e evitava ser visto com ela em público – para ter acesso ao dinheiro e aos contatos para poder costurar. Contra a vontade do milionário Balsan, ela se introduziu no seu círculo social e encantou seus amigos, e começou a fazer chepéus para as mulheres influentes da aristocracia francesa.

É interessante como o filme quebra o maior mito sobre Chanel, que é famosa por ter libertado as mulheres de roupas sufocantes e desconfortáveis. Ela fez tudo isso, é verdade, mas em nenhum momento do filme ela diz fazer isso em prol das mulheres, nem busca igualdade entre os sexos, nem nada feminista. Ela faz por ela. Responsável por introduzir as calças no vestuário feminino, Coco as utiliza pela primeira vez simplesmente porque desejava cavalgar, e utiliza roupas simples e confortáveis porque as prefere assim. Apesar de toda a sua inegável influência na construção da imagem da mulher moderna, Chanel fez tudo por si, ou pelo menos é o que o filme deixa a entender.

A atuação de Audrey Tautou no papel principal confere à personagem uma aparência mais jovial e elegante do que as fotos de Coco Chanel nos passam. A elegância, aliás, é a marca da futura estilista, que, desde seus tempos pobres de cantora de cabaré até sua introdução na elite aristocrática, tinha horror ao vulgar, ao fru-fru, ao espalhafatoso. Foi Chanel quem introduziu na moda a idéia de que elegância é simplicidade, e que não mostrar é mais sexy do que decotes até o umbigo.

Não vou me estender muito no romance de Chanel com o amigo inglês de Balsan (porque não acho o ponto mais relevante do filme), nem em sua quebra dos padrões femininos de comportamento – que é algo que eu acho que todo mundo já sabe. É também interessante ver como a estilista não é mostrada como uma pessoa moralmente superior – ainda mais porque o filme contou com o apoio incondicional da Chanel S.A. e de Karl Lagerfeld. Fica claro como Coco fica deslumbrada da primeira vez que entra na casa de Balsan. A propriedade, o casarão, o papel de parede, a cama, a banheira, a decoração – fica claro como Chanel fica deslumbrada, chegando a se submeter a evidentes humilhações para não perder tudo isso. Apesar disso, a pose da personagem durante todo o filme faz a gente quase se envergonhar de estar engordurando os dedos com pipoca em um filme très, très chic.

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