quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Gastronomia da Preguiça

Depois do meu último post revoltadinho, voltamos aos nossos assuntos normais, embora ainda frívolos. Uma das maiores agonias da minha vida é que nunca tem nada pra comer: no café da manhã ou na janta, é sempre um desafio emocionalmente desgastante preparar uma refeição fácil, rápida e comestível.

Sim, eu sei que a tele-entrega é a solução mais natural para o problema, mas só pode ser utilizada nas situações mais desesperadoras, uma vez que não é sustentável a longo prazo. O mesmo vale para as comidas congeladas, estas com a desvantagem de precisarem ser compradas previamente.

Daí o cidadão entra na cozinha, abre a geladeira, e não tem nada. Nem no armário. Nem no congelador. No freezer, uma caixa contendo dois nuggets vencidos faz companhia para uma forminha de gelo vazia. Quem nunca se viu nesta situação? Foi por isso que eu resolvi compartilhar minhas receitas para aqueles sem tempo, sem paciência, sem ingredientes e, principalmente, sem maiores exigências.

Algumas receitas aqui apresentadas não constituem uma refeição completa, mas podem ser combinados para criar um prato, digamos, internacional. O primeiro, para principiantes, é a espiga de milho instantânea. Claro, vocês devem estar pensando, “mas milho não é instantâneo, demora pra caramba naquela merda daquela panela”, mas aqui é que entra a parte genial da coisa: dá pra fazer milho no microondas. Sim, eu sei, é mágico! Basta enrolar a espiga em três voltas de papel filme e deixar três minutos dentro do mais fantástivo equipamento de culinária, e voilà!, uma iguaria à sua mesa. A única parte mais complicada é desenrolar o papel filme, que está muito quente. Eu sugiro retirar o milho do microondas com o pegador de massa e tirar o papel utilizando duas facas com ponta. Afinal, pra que que servem todos aqueles utensílios que a gente tem na cozinha?

Outra alternativa fácil é a pizza de frigideira, desde que o indivíduo tenha em sua geladeira um pacote com a massa, não mais do que 7 meses passados do prazo de validade. O recheio é feito com os mais finos e seletos ingredientes que você encontrar na sua cozinha: duas fatias de queijo (sem mofo), presunto, molho de tomate pronto, requeijão, orégano, manjericão, tomate, cebola, restos do almoço, e aqueles dois nuggets que estão sobrando no freezer.

Na âmbito da culinária italiana, temos a massa. Serve a que tiver, inclusive um sofisticado mix com o resto de vários pacotes – spaghetti com penne fica ótimo. São inúmeras opções de molho, mas gosto de destacar os consagrados “feijão-que-sobrou-do-almoço” e “requeijão com salsicha”.

Salsicha, aliás, pode criar pratos realmente, digamos, únicos. No apartamento da praia, em que não havia realmente nada pra comer, fui salvo por uma exótica combinação de salsichas cobertas com queijo prato acompanhada de ovos cozidos, ou, como dizem os franceses, saucisse à le fromage avec des oeufs blancs. Ovos cozidos, aliás, podem acompanhar qualquer coisa, inclusive ovos fritos.

Os ovos fritos, por sua vez, podem ser misturados aos restos do almoço para compor um exemplo típico da culinária de pedreiro, o arroz-feijão-guisado-e-ovo. Se a pessoa não tiver guisado pronto na geladeira, pode substituit por bife. Claro, os ingênuos leitores devem estar pensando, “dã, mas se eu tivesse bife pronto eu não ia estar fazendo essas gororobas”. Mas esta é genial até para os meus padrões: embora eu nunca tenha tentado em casa, eu ouvi falar que é possível fritar bifes no ferro de passar roupa. Eu até tentaria, mas o ferro lá de casa não é muito meu amigo. Uma única vez que eu tentei passar uma camiseta com ele, ele explodiu na minha mão. Tá, explodiu é exagero, ele só começou a soltar faíscas pra tudo que é lado e a derreter o plástico. Talvez os ferros de passar façam isso, não sei, mas eu achei melhor não me meter mais com ele. Mas divago.

Para os que apreciam desafios, eu sugiro a sopa de capeletti. Demorada, sim, mas nem por isso difícil. Os únicos ingredientes indispensáveis são capelleti e água; o resto é substituível. O mais tradicional é fritar frango com pasta de cebola e alho pronto direto na palena de pressão (aberta né, por favor), mas, se já tiver frango pronto na geladeira, ou não tiver frango nenhum tipo, dá pra fritar só o alho e a cebola. Se também não tiver isso, tudo bem, dá pra pular esta etapa inteira. Em seguida, enche-se a panela com água. Eu prefiro tirar água fervente direto da torneira, aquecida pelo junker – muito mais rápido, muito mais efeito estufa. Caldo de carne é altamente recomendável. Um cubinho se tiver frango, dois se não tiver. Se tiver frango, feche a panela e a deixe no fogo até entrar na pressão, mais dez minutos. Eu conheço uns idiotas que deixam a panela parada até parar de sair vapor, e outros ainda que abrem ela direto no fogão. Para quem não sabe, basta colocá-la dentro da pia e deixar correr água fria pela tampa – a pressão sai rapidinho, aí é só levantar a válvula e abrir. Eu acho que isso é seguro. Nunca morri, pelo menos. Esqueci de dizer que os capelettis comuns não prestam muito, eu sempre prefiro aqueles congelados que tem nos freezers do supermercado. De qualquer modo, essa receita amplamente maleável de sopa de capeletti geralmente funciona. Já fiz algumas medíocres, principalmente quando não tem frango, mas, ruim mesmo, nunca. E fica melhor com salsinha e queijo ralado. Se tiver, é claro.

Mas de nada adianta dominar todas estas sofisticadas técnicas da gastronomie du paresseux sem saber a bebida perfeita para acompanhar o prato principal. Receber visitas em casa e servir uma massa com requeijão acompanhada de Fanta Uva light configura um faux pas do qual o indivíduo raramente retorna, e é visto como a textbook definition do suicídio social.

Ao contrário do que diz a sabedoria popular, a bebida universal não é a água, e sim a Coca-Cola. A quantidade de açúcar presente em uma latinha é suficiente para disfarçar o gosto de absolutamente qualquer coisa, com a exceção de couve-flor, que causa nojo pela aparência, e do bife de fígado, pelo cheiro.

Como todos sabem, a embalagem de vidro é a que carrega as melhores safras deste inigualável refrigerante de cola, embora não estejam sempre disponíveis no supermercado mais próximo. Água com gás é um bom acompanhamento, desde que com muito gás, recém aberta, e muito gelada, que também disfarça qualquer gosto.

No inverno, nada melhor que um chocolate quente, que eu acho que é a única coisa que eu consigo fazer bem com quaisquer ingredientes que eu encontrar. Meu chocolate é total flex, dá certo com quaisquer proporções de chocolate em pó, cacau em pó, Toddy comum, café expresso, café solúvel, chocolate em barra e até chocolate branco. Funciona muito bem com leite desnatado e, se não utilizar Toddy nem chocolate ao leite em barra, sugiro açúcar. Ah, e antes que eu me esqueça, chocolate quente com chocolate em barra não se faz colocando a barra na xícara e levando ao microondas (vai saber né, sempre tem um...). Esquente o leite em uma panela ou frigideira grande e adicione o chocolate ralado, mexendo sempre. Fica melhor quando feito na frigideira, embora transferir para a xícara depois seja sempre um pouco trabalhoso.

E, o grand finale de uma experiência gastronômica especial: a sobremesa! Lembre-se: uma colher de Toddy puro satisfaz tanto o vicío de chocolate quanto o de açúcar.


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