terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Insustentável Leveza do Ser

Acho que eu nunca escrevi dois posts seguidos, mas, como disse há 20 segundos no post anterior, sobre bares e amigos secretos, eu não venho escrevendo sobre livros e música, que é o que eu conheço mais. Mais do que filmes, pelo menos. Não contem pra ninguém, mas eu nunca vi Casablanca.


Resolvi começar então com livros. Mais especificamente, com o meu livro preferido, A Insustentável Leveza do Ser, do Milan Kundera. Apesar do título pomposo, a leitura é simples e rápida, mas sem perder em profundidade. Releio uma vez por ano, sempre nas férias. Mas vamos ao livro:


A maior parte da história se passa na Praga do final dos anos 60. Na primavera de Praga, pra ser mais exato, quando a União Soviética invade a Tchecoslováquia, ocupando a capital com tanques de guerra, como o Google Imagens nos mostra a um clique de distância.

Eu não vou entrar muito na história em si, que trata principalmente do relacionamento entre o casal Tomas e Teresa, e também do relacionamento de cada um com os outros e com o mundo. O autor explora de forma fantástica as diferenças que afastam as pessoas, e como a mesma palavra pode ter significados diferentes para duas pessoas diferentes, criando uma série de desentendimentos sem que nenhuma consiga perceber o porquê.


Para Tomas, fidelidade significa permanência, significa voltar sempre para a mesma mulher. Para Teresa, que se sentia repugnada pela promiscuidade de sua mãe, fidelidade significa exclusividade, e, mesmo sabendo que Tomas ama apenas a ela e aceitando racionalmente o fato de ele se envolver superficialmente com outras mulheres, sente-se repugnada pelo cheiro de suas amantes, lembrando-se do comportamento da mãe durante a sua infância. Pelo mesmo motivo, Teresa enxerga o sexo e o seu corpo como algo sagrado e que deve ser protegido e tratado com cuidado, enquanto Tomas acredita que o sexo seja apenas um instinto a ser saciado, com pouca relação com o amor romântico, que sente exclusivamente por Teresa. O escritor segue explorando o múltiplo significado das palavras e dos gestos para cada pessoa, e como eles podem criar abismos entre os indivíduos mais próximos, e como o sentimento pouco é influenciado pela razão.


Milan Kundera aborda também a questão dos princípios, quanto Tomas precisa escolher entre declarar apoio a um governo autoritário e manter sua profissão de prestígio ou se recusar e ser rebaixado para um subemprego. O tema em si não é tão interessante quanto o do parágrafo anterior, mas é relevante por dois motivos. Primeiro, porque reflete as decisões do próprio autor, um tcheco exilado na França, e, segundo, porque começa a adentrar na principal questão da obra: como as nossas decisões influenciam nas nossas vidas?


Segundo Kundera, cada decisão só pode ser feita uma vez, e nós jamais poderemos saber o que teria acontecido se tivéssemos tomado o outro caminho. Assim, cada escolha é um passo no escuro: em apenas uma vida, nunca saberemos o resultado das alternativas rejeitadas, e isso leva à conclusão de que as nossas decisões são fundamentalmente irrelevantes. De nada adianta nos preocuparmos com escolhas difíceis se não temos como saber qual alternativa é a melhor e se jamais vamos descobrir se o caminho que não escolhemos teria sido melhor ou pior. Por isso, somos leves. Todas as nossas decisões são uma chance de 50%, e durante toda a vida caminhamos de olhos vendados. Por isso, a insustentável leveza do ser.


Talvez a minha explicação tenha ficado um pouco complicada demais, mas na verdade não é. O livro é fantástico, apesar de certos colegas de blog que insistem que o melhor livro do mundo é o Senhor dos Anéis. Recomendo a leitura para todo mundo, o que é óbvio, já que eu abri dizendo que este é o meu livro preferido.

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