quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Memórias de Capão

Todo verão, desde que eu me entendo por gente, eu vou para Capão da Canoa. Em minha defesa, não é por escolha própria, mas, depois de duas décadas visitando o mesmo lugar, no mesmo apartamento, a gente acaba gostando de algumas coisas. E abominando várias.


Em primeiro lugar, há o apartamento em si. Meu vô tem um apartamento de dois quartos bem no centro de Capão. Por um lado, é perto de tudo, em especial da sorveteria Gelf’s. De duas Gelf’s, na verdade, porque elas ficam uma na frente da outra. Com dois quartos, seis camas, e uma mesa redonda com cinco lugares (apertando), não é rara a coabitação de sete ou oito pessoas atrolhadas no pequeno recinto. A ausência de telefone, forno de microondas e televisão a cabo, aliada a eletrodomésticos dos anos 70, leva os ocupantes do apartamento a uma existência quase selvagem. A única peça de mobília confortável é uma poltrona velha, que, se posicionada corretamente, pode ser girada até ficar na posição perfeita para apoiar os pés no sofá. Desnecessário dizer que tal poltrona (e o combo poltrona + ventilador) é disputada a ferozes golpes de guarda-sol.


A gastronomia de Capão é um dos aspectos da cidade que merecem destaque. O prato típico da região é o crepe, feito vagarosamente em milhões de barraquinhas amontoadas no centro, onde, após esperar em filas que competem com as dos bancos públicos em dia de pagamento, o cliente pode ver se crepe sendo feito e assado com os ingredientes mais suspeitos do hemisfério sul. Dou destaque para o “queijo cheddar”, uma pasta amarela semelhante à massinha de modelar, embora de consistência (e, provavelmente, sabor) inferior. Depois de um crepe, nada como tomar um sorvete na Gelf’s. Não que o sorvete deles seja uma maravilha; é bom, mas nada de especial. O que vale são as infinitas variedades de coberturas, doces, confeitos e demais porcarias que o estabelecimento oferece, qualificando-se para o prêmio de refeição mais diabética do Mercosul. Para os que preferem uma culinária mais simples, os milhos das barraquinhas da beira da praia, cozidos em água do mar, ainda são a melhor pedida. O único inconveniente é que tem que ir até a praia para comprar.


Falando em praia, é uma coisa que Capão não tem. Tem uma faixa de areia suja, poluída pelos milhares de farofeiros que lá se assentam diariamente, bebendo Kaiser quente trazida no isopor e gritando para suas criancinhas perebentas não entrem muito fundo no mar, e gritando mais ainda quando elas se afogam. Aliás, isso era uma coisa que não tinha quando eu era pequeno.


Não tinha, porque, quando eu era pequeno, Capão só tinha casas e prédios velhos de três andares. Hoje, com a construção desenfreada de prédios de dez ou doze andares, os imóveis antigos se desvalorizaram, permitindo que qualquer pé-rapado alugue um barraco na praia, geralmente dividindo os custos com mais 18 membros da família. A densidade populacional de Capão durante Janeiro e Fevereiro deve ser maior que a de Monaco.


Isso traz um outro aspecto fascinante da cidade: sua arquitetura. Capão é a única praia que eu conheço, talvez junto com o Rio de Janeiro, que permite a construção de prédios enormes bem na beira da praia. Um grudado no outro, eles formam uma parede gigantesca que envolve a cidade em sombras. O que é muito apreciado, já que eu não gosto de sol. Além disso, toda a areia, que antigamente entrava algumas quadras para dentro da cidade, agora pára diretamente na sala de estar destes novos e maravilhosos apartamentos, cuja habitação implica em uma faxina sem fim e sem resultados.


A economia de Capão da Canoa também é muito peculiar, sendo puxada, principalmente, pelo comércio de artigos falsificados. No meu tempo, eram radinhos de pilha e fitas da Game Boy, mas hoje a gama de produtos é ampla, e a sensação do momento são as camisas Tommy Hilfiger, Lacoste e Ralph Lauren, de qualidade cômica, exibidas orgulhosamente pelos já mencionados farofeiros, quando passeiam pelo centro depois da novela. O mercado de tênis Puna e Abibas também é muito forte, e, neste verão, a novidade são os relógios Rolex a R$ 40,00, e a nova linha da Mont Blanc, com pulseiras de borracha, exclusiva para Capão da Canoa.


Capão da Canoa também é lar de algumas figuras lendárias, como o sumido Homem do Gato, que, com um apito que ele vendia e cuja técnica ninguém jamais conseguiu dominar (era algo que envolvia colocar o apito debaixo da língua e invariavelmente cuspir na própria camisa), fazia o barulho de um gato morrendo, ao mesmo tempo em que espancava com um taco um saco cheio de jornal, aglomerando um círculo de pessoas que bloqueavam o trânsito. Mas a figura mais lendária e icônica de Capão, mais ainda do que os pintores argentinos que fazem quadros de sala de espera usando apenas sprays de tinta, é o Velho do Abacaxi. Com aproximadamente 200 anos de idade (mas aparentando 195), ele vai todo dia com seu carrinho de madeira e vende abacaxis para os transeuntes. Bom, na verdade ele venda ananás, mas é conhecido como o Velho do Abacaxi.


As opções de entretenimento na cidade são bastante limitadas. Além do tradicional mini golf, existem o cinema retro, que todo ano estréia os filmes do verão passado, o fliperama e entrar nos shoppings de rua para fugir da chuva. Outros divertimentos populares incluem o estouro de manada no calçadão ao final da tarde e ser atropelado por motoristas bêbados. Foi nesse sentido que a cidade mais decaiu desde os tempos de meu avô, que afirma já ter quase sido preso for fazer tiro ao alvo com um revólver contra o farol do centro. No meu tempo, já não tinha mais isso.







5 comentários:

bianca disse...

se eu fosse tu, eu me rebelava e nunca mais ia pra lá :P
vou ter pesadelos com capão agora!!

Waick disse...

Mas lá tem sorvete!

tio_do_buteco disse...

Em tempos de Planeta Atlântida, eu diria que Atlântida deve ficar pior que Capão. Enfim, estou em Porto Alegre bem feliz fazendo francês com ar-condicionado, o azar é todo seu.

gabriela disse...

tu esqueceu de camboriu, com milhares de predios na beira da praia! mas pára.. praia eh bom

Anônimo disse...

I like it very much!