sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Mais alguma coisa sobre nada

Daí estava o Waick a pensar sobre um novo assunto para postar no blog. Faziam já alguns dias do último post, que ele não tinha achado grande coisa to begin with. E ele pensa, em voiceover, “eu quero escrever, mas eu não tenho assunto”. Uma montagem mostra o Waick lendo e ouvindo mil coisas interessantes sobre mil assuntos interessantes, em diferentes momentos, locais e situações. Ele pode explicar com razoável nível de detalhe por que o carro se consagrou como o principal meio de transporte a partir dos anos 20, sabe o que é e como opera uma equipe da S.W.A.T., conhece diversos métodos para lavagem de dinheiro, e poderia operar um ponzi scheme com relativa habilidade, tudo aprendido na última semana. Mas o Waick não acha que é honesto postar conteúdo tirado inteiramente de outras fontes, sem nada de criatividade. Até porque daí ele teria que ficar fazendo piadas para dar um toque pessoal ao post. Voiceover: “Seu eu não acrescentar nada, é apenas jornalismo de péssima qualidade. E resumido, ainda. E preguiçoso. Além disso, eu vi tipo uns cinco ou seis filmes em uma semana, dos quais pelo menos dois valem umas cinco estrelas, mas eu tô cansado de postar sobre filmes, e principalmente porque eu acho chato escrever sobre filmes dos quais eu gostei, o divertido é reclamar. Just for the sake of it. E o único filme ruim que eu vi recentemente foi Premonição 4, que é obvia e previsivelmente péssimo, é a proposta da coisa, não faz sentido reclamar de um filme que não se leva a sério, explicitamente”.

O Waick está sempre procurando tópicos para postar. Não ativamente; não é que ele fique pesquisando, mas ele ainda tão entediado que procura assuntos interessantes para fins meramente recreativos [voiceover] “eu poderia postar sobre isso, é um assunto legal! [pausa] Mas não, isso não teria nada de criatividade. Daria um bom resumo. Uma entrada pra enciclopédia. Uma boa redação de vestibular, no máximo”.

Waick entra no quarto e coloca um filme no DVD. Ele já tinha visto esse filme, mas não se lembra de quase nada. Falta de ômega 3, “não como peixe muito seguido”. O nome do filme é Adaptação, escrito pelo roteirista Charlie Kaufman, e conta a história real de Charlie Kaufman, um roteirista que não tinha idéias pra escrever um roteiro e começou a escrever um roteiro sobre sua falta de idéias para escrever um roteiro. Em vários momentos, Charlie (personagem) cita os clichês que deseja evitar, e, logo depois, Charlie (roteirista) e logo depois Charlie (personagem) incluem todos esses clichês do roteiro. Tem drogas, tiros, sexo e perseguição. E orquídeas.

Um dos personagens encontra uma das orquídeas mais raras do mundo, muito cobiçada. E não acha grande coisa. Porque os personagens do filme são pessoas normais, sem grande força de vontade para mudarem, sem um “arco de personagem”, o que é justamente o problema do Charlie para escrever o roteiro. Porque nas vidas dos personagens, nada de muito interessante acontece.

Logo depois do filme, o Waick liga o computador [plano mostra a tela do computador e, pela janela em frente, o relógio luminoso da Sogipa marcando 12h55], pra listar o filme em um arquivo do Word com todos os filmes vistos desde o início de 2009. Ele escreve “Adaptação” sob o número 28 do ano de 2010.

Plano mostra Waick pensando em frente ao computador: [voiceover] “O cara é foda, ele fez um roteiro sobre a dificuldade de se fazer um roteiro, e a história contada é a mesma que o personagem está escrevendo!” [expressão do Waick muda para uma cara de epifania] “Não faz uma semana que eu li uma crônica do Veríssimo em que ele dizia que quando um cronista não tinha assunto, ele escrevia sobre a falta de assunto. [expressão do Waick muda para idéia genial. Lâmpada se acende sobre sua cabeça].

Waick salva o arquivo com a lista de filmes (lista de filmes.doc), fecha, e abre um novo documento no Word onde ele começa a escrever sobre a dificuldade de achar um assunto para o blog. Ele abre o iTunes para relembrar os tópicos de alguns podcasts que ele ouviu no carro durante a semana, e procura todas as entradas da Wikipedia no histórico do Firefox. “Meu Deus, eu to lendo tanto sobre tantos assuntos nada a ver que daqui a pouco eu vou ficar que nem o Mota. I just GOTTA change my haircut!”.

Depois de escrever sobre como é difícil arranjar um assunto, ele começa a escrever sobre o filme. Nesse ponto, a câmera mostra ele escrevendo e o texto é lido com a voz do personagem. Vários cortes mostram ele escrevendo de diversos ângulos, a única luz no quarto vindo da própria tela que é refletida em seus olhos. Ele começa então a descrever o filme, que está dentro do assunto de não ter assunto. [voiceover] “Se eu colocar também aquela parte sobre o Veríssimo, vai parecer o post tem um propósito, um tema definido, porque até agora está parecendo uma coisa meio sem pé nem cabeça”.

A câmera mostra então o Waick começando a digitar freneticamente, inclusive com um plano do seu rosto concentrado e de seus olhos maníacos, dedos metralhando o teclado. A voz do personagem vai lendo todo o texto que foi escrito previamente, em um tom exasperado, angustiado, a velocidade aumentando conforme o tamborilar das teclas. Waick descreve o momento em que salva o .doc com a lista de filmes. Escreve sobre sua preocupação em se tornar um Mota da vida. Começa a descrever o processo de descrição, freneticamente, desesperadamente, até que o texto finalmente alcance a realidade.

“Falta um final. Sim, falta só um final. Uma reviravolta, um turnaroud, algo inesperado que dê sentido para todo o texto! Algo súbito e marcante, inevitável, que force o personagem a repensar seus conceitos e suas atitudes perante a vida!” Mas nada acontece, porque na maioria das vezes nada acontece. Que nem disse no filme.

4 comentários:

André disse...

quais foram os fimes 5 estrelas que tu viu recentemente??

aahhh, praia amanha.....

Waick disse...

Minha lista de filmes só pode ser divulgada no final do ano. Eu tô pensando em mandar pra retrospectiva da globo essa.

Bruno Guima disse...

Posta sobre aquele reality show sádico do sbt.

Daphne Endress disse...

gostei do teu preciosismo de escrever em Courier New!